sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

“O Sol dos Scorta” – Laurent Gaudé


“O Sol dos Scorta”, do francês Laurent Gaudé, editado pela Nova Fronteira, pode ser considerado, sem qualquer margem de risco, um dos melhores romances de todos os tempos, tal a qualidade da escrita, a imaginação e o realismo de que está impregnado – não foi por acaso que ganhou o prestigiado Prémio Goncourt 2004.Neste romance, do mesmo autor de “A Morte do Rei Tsongor”, cerca de 220 páginas chegam para contar a saga de uma família amaldiçoada, com raízes numa pequena, quente e seca aldeia do sul de Itália, Montepuccio. Gaudé descreve de forma sublime essa aridez, que da geografia escorre para as personagens. O início da obra, aliás, é revelador. Um homem, um burro, calor e uma aldeia deserta na hora mais abrasadora, logo após o almoço. É uma saga familiar, mas à escala da pequena Montepuccio. Os Scorta, a família em causa, são poderosos, mas naquele ambiente pequeno, fechado e atrofiador, onde só há gente que se revela incapaz, por falta de preparação, de sobreviver longe dali.A história começa em 1870, quando Luciano Mascalzone, um bandido que esteve preso quinze anos, regressa à “sua” Montepuccio. Sabe que nada de bom o espera – sabe que a morte é quase certa – mas tem uma obsessão: possuir Filomeni Biscotti, um desejo da juventude que o manteve vivo na prisão. Entra na aldeia, com o seu burro, na hora em que todos se escondem, na hora do sol inclemente, e vai directo a casa de Filomena. Sem Luciano perceber, quem lhe abre a porta é a irmã mais nova desta, Immacolata, como o nome deixa adivinhar ainda virgem. Ela deixa-se violar pelo regressado, que não se apercebe da “troca”. Pensando ter cumprido o seu sonho de juventude, atravessa de novo a aldeia, mas desta vez não escapa à fúria dos aldeões, acabando por morrer satisfeito, sem saber que tinha possuído a mulher errada – Filomena havia morrido há já vários anos.Immacolata viria a dar à luz Rocco, mas morre quase de imediato. Os aldeões, sendo Rocco filho de quem era, pretendem matá-lo, mas a criança é salva pelo padre e enviada para outra aldeia, onde viria a ganhar o nome Scorta – nascia assim, de um equívoco, uma nova linhagem. Tal como pai, Rocco dedicou-se à vilanagem inspirando temor em Montepuccio e redondezas. Assim seria em gerações futuras, de todas nos contando a história Gaudé. Os Scorta acabam por ganhar o respeito dos habitantes de Montepuccio, tanto pelo dinheiro que foram amealhando como pelo temor que inspiravam. Mas “O Sol dos Scorta” é, essencialmente, um livro sobre a importância dos laços familiares (ou de sangue) que resistem a todo o tipo de adversidades.É a história de uma família amaldiçoada ao longo dos anos, e ao mesmo tempo a história de uma (como muitas outras) pequena aldeia com dificuldades em atravessar a passagem do tempo e em acompanhar a evolução natural. É que Gaudé descreve também os contrastes entre a tradição e a modernidade, nomeadamente com a chegada do turismo.A religião é outro dos temas-chave deste romance, sendo explorada através da relação dos Scorta com os padres que se vão sucedendo na aldeia, uns mais abertos, outros mais retrógrados, mas sempre com um afecto especial, e até estranho, por aquela família onde Bem e Mal têm contornos pouco definidos.

2 Comentários:

Às 11 de dezembro de 2010 09:58 , Blogger Daysisinha Caldas disse...

Olá venho aqui indicar um autor francês ja que vc aprecia literatura e cultura ele se chama: Jean-Yves Loude vou mandar-lhe um link com um pouco sobre ele http://www.ponto.altervista.org/Livros/entrevistas/loude_pt.html mais so adiantando ele faz uma bela critica sobre a influencia negra em portugual.
Até a proxima!!!

 
Às 23 de setembro de 2012 14:40 , Blogger Luis Freitas disse...

Acabei hoje de ler o Sol dos Scorta. Fiquei fscinado e a história de como o li também merece ser contada. Comprei-o e prsenteei minha esposa, ocorre que ela o leu gostou muito, mas não comentamos sobre o livro. Dias desses para irmos a um show deveríamos trocar um livro por dois ingressos. Levei o livro e fui lendo na viagem de travessia do lago no catamarâ, so que em vinte minutos eu já estava arrependido de levar o livro para trocar. CXhegando lá os ingressos para minha alegria estavam esgotados e retornei sem tirar os olhos das páginas, e valeu apena. O livro é lindo e muit bem escrito, esse jovem Laurent Gaudé, apesar de Frances escreve maravilhosamente e com propriedade sobre a Itália, seus costumes, povos e tritezas e alegrias.

 

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