Se com Tempos Modernos Chaplin mostrou como a industrialização estava levando o homem à alienação social, Meu Tio mostra os resultados desta época...
Assim como a imagem de Charles Chaplin ficou perpetuada
no consenso popular através do personagem Vagabundo e seus característicos
bigode, bengala e chapéu, a primeira relação que pode ser feita ao nome de
Jacques Tati é de uma figura alta, de cachimbo e chapéu, vestindo um longo
casaco e com um característico modo de andar. Não se trata de uma descrição do
ator e diretor francês, mas sim de seu personagem, o Sr. Hulot, que fez sua
primeira aparição no filme As
Férias do Sr. Hulot de 1953. Meu Tio,
o filme subsequente do diretor, apresenta o retorno do cômico personagem, desta
vez entrando em conflito com a cultura consumista importada dos EUA que invadiu
a França no período pós-guerra. Seguindo a linhagem de Chaplin, que produzia
obras com um viés político e social, através de Meu Tio, Tati tece uma crítica à modernização, à perda
de valores interpessoais e à criação de uma sociedade hedonista que busca o
prazer através do consumo. O filme nos apresenta a família Arpel, composta pelo
Senhor e a Sra. Arpel e seu jovem filho
Gerard. Localizados em um bairro de classe alta do subúrbio de Paris, os Arpel
vivem em uma residência cuja construção poderia ter sido extraída diretamente
de um catálogo de Art Déco: uma enorme mansão composta por vastos cômodos, uma
garagem de porta mecanizada, uma vasta fachada com um jardim cercado por altos
muros e, o símbolo máximo da ostentação, uma fonte em formato de peixe que a
Sra. Arpel se orgulha em exibir aos visitantes. Todas as manhãs, o Sr. Arpel
dirige o pequeno Gerard para a escola a caminho do trabalho, enquanto a
matriarca mecanicamente cuida dos serviços domésticos. Em um bairro mais
humilde da cidade, mas onde o charme e a simplicidade da velha França ainda não
cederam à modernização, encontra-se o Sr. Hulot (Tati), irmão da Sra. Arpel.
Contrastando com a moradia perfeita da irmã, ele vive em uma vila onde os
moradores moram próximos uns aos outros e inevitavelmente se cumprimentam todas
as manhãs; onde o gari varre as ruas e conversa incessantemente com o ocasional
pedestre e onde as pessoas se unem ao redor das barracas de frutas e legumes
para não perderem a última oferta da feira.
Naquele dia, o Sr. Hulot ficou encarregado de tomar conta do sobrinho. Após
buscá-lo na escola, ele leva Gerard para um passeio nos arredores de seu
bairro. Logo fazendo amizade com as crianças locais, o menino descobre o prazer
de atividades simples como comer doce do vendedor da rua e fazer brincadeiras
como distrair os pedestres na rua para que estes caminhem de encontro a um
poste. Gerard vê então em seu tio uma válvula de escape do estilo de vida de
seus pais, tendo a oportunidade de ser uma criança como as demais. No bairro do
Hulot as pessoas conversam, fofocam, brigam, xingam, mas, acima de tudo,
confraternizam e se divertem juntas. Cercados por altos muros, as relações do
casal Arpel com o mundo esterno se resumem aos amigos de trabalho do marido e à
vizinha de classe alta que acabara de se mudar. As relações burguesas são
formadas por jogos de aparências, conversas superficiais, sorrisos falsos e
laços emocionais arranjados. Meu Tio é uma maravilha do cinema que, assim como
Tempos modernos, merece ser vista sempre.
0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial