quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LUANDA BEIRA BAHIA E O HIBRIDISMO CULTURAL: BRASIL ANGOLA E MOÇAMBIQUE





O romance de Adonias Filho, Luanda Beira Bahia, mostra o reflexo da ligação Portugal-Brasil-Angola-Moçambique, decorrente do processo histórico marcado pela colonização portuguesa, desde a semelhança lingüística e cultural, até mesmo a semelhança geográfica, se compararmos, por exemplo, Salvador e Luanda, capital de Angola. Há um herói nascido no Brasil, numa praia da Bahia, resultado da união de Morena e João Joanes. Quando o garoto completou dois anos, seu pai desapareceu. O destino da maioria dos marinheiros é abandonar a família, seus amigos para “ganhar mundo”, aventurar-se em outros mares, assim como fez os primeiros navegantes portugueses no século XVI.Caúla cresce percebendo toda a agonia da mãe, na doce ilusão da volta do marido. Com medo que seu filho seguisse os mesmos passos do pai, ela vai fazendo tudo que é possível para que Caúla não caisse nas armadilhas dos encantos do mar. Com a morte da mãe, nada mais prendia Caúla a sua terra natal. Ele agora podia seguir o mesmo destino do seu pai.Adonias Filho escreveu Luanda Beira Bahia após uma viagem que fez à África que representa a trajetória da colonização européia no Brasil, introduzindo, consciente e intencionalmente, a importância do elemento africano em nossa formação cultural. “Pedaços vivos da África estão na Bahia” – afirma nesta obra o narrador de Adonias Filho, reiterando uma relação entre os dois continentes que se repete em sua ficção.Brasil e Angola, em particular, tiveram um forte intercâmbio humano, comercial, e como decorrência lógica, cultural, resultante do mesmo influxo histórico: a dominação colonial portuguesa. Povos, que hoje compõem o país de Angola, sobretudo os quimbundo e os quicongo, foram trazidos para o Brasil durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, num fluxo contínuo, imprimindo à cultura brasileira aspectos muito peculiares, africanizando o nosso modo de falar e transformando a cultura lusitana, tornando-a mestiça. Manifestações culturais importantes no Brasil, como o samba, música nacional, é de origem angolana, assim como a umbanda, religião altamente disseminada entre nosso povo é uma amálgama das várias religiões oriundas dos povos bantos, sincretizadas no Brasil com as religiões ameríndias e com o catolicismo português:Adonias Filho leva seu herói, nascido na Bahia, terra de todos os santos e deuses, a fazer o percurso completo da África lusófona, de Beira em Moçambique à Luanda e à Bahia. Ele percorre as terras africanas e brasileiras com total desenvoltura, como se estivesse em sua própria terra.Ainda em Luanda Beira Bahia, a professora negra ensina ao brasileiro Caúla uma lição repleta de verdade humana: o caminho da África, que a narrativa apresenta como o da nossa origem. No final do romance, o autor constrói uma imagem densa de significados culturais. O pai europeu morto, um filho mestiço de índio, outro de negro, igualmente mortos, são colocados em uma embarcação para que façam a viagem de volta pela África, Europa e América. Mais que figuras individuais, essas personagens constituem representações simbólicas de nossa cultura.

2 Comentários:

Às 26 de novembro de 2010 01:21 , Blogger Paulo Duarte disse...

Tempos Passados; Refexo "in-reflexivo" do Tempo Presente.
"Quem Somos!".
Parabéns pela iniciativa.
Até sempre.

 
Às 8 de julho de 2013 09:50 , Blogger marcelo rodrigues de araujo disse...

Luanda, Beira, Bahia: Clássico. Notável. Excelente livro. De difícil interpretação, uma leitura apenas não basta. Rico conhecimento literário do autor. Noventa por cento narrativo. Detalhista. Explora bem o espaço e tempo em volta dos personagens. Curiosa alternância entre 3ª e 1ª pessoa. Parece ter sido escrito numa sequência e depois montado em outra. Final trágico, emocionante, surpreso, chocante, inesperado. Autor prende a curiosidade e o desfecho até o fim. Parece não ser em todo uma obra de ficção, sugerindo que, experiências e conhecimentos próprios do autor, estejam nas narrativas.

 

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